Leite de Macho pt.2
Continuação da saga de Benjamim
Não eram nem 9 horas da manhã e o sol já brilhava forte no céu. O brilho refletido no aço dos postes que seguravam a rede de tênis na quadra se viravam lentamente em direção ao rosto de Benjamim. Ele segurava uma garrafa de água, mas não tinha sede. Uma hora antes o perfil oficial da Federação de Tênis já havia publicado a sua suspensão por um ano dos campeonatos e qualquer outro evento esportivo. Pelo menos foi publicado numa nota discreta, ele pensou, como se isso pudesse apaziguar um pouco o que sentia. Um misto de raiva com decepção, tristeza e desespero. Há dois dias sentia-se confiante; poderia ganhar um dinheiro bom para ajudar os pais na situação difícil em que passavam. Agora não só não ia ter dinheiro, como toda a realidade que batia à porta da família Valburgo se avolumava sobre a pequena fazenda decadente onde moravam.
O treinador o chamou para conversar e ele saiu de casa mais cedo, esperando estar sozinho no ônibus, mas sua irmã mais nova o acompanhou para a aula de dança no clube e ele ficou lá na arquibancada da quadra de tênis, esperando o Samurai. Ficou mais de uma hora ali, mas nem viu o tempo passar. Seu olhar perdido ficou zanzando pelo saibro das quadras onde disputara o campeonato na última semana. Foi na oitava, a mais distante de onde estava, que teve a sua estreia e na número 1, ele fez o seu melhor jogo, o das semi-finais, crente de que tudo iria dar certo a partir dali. O futuro era belo, com dinheiro e a garota que transitava pelos corredores sudorentos de seus sonhos ao lado. Um set, uma lesão e um escândalo, pronto. Provavelmente nunca mais teria chances por ali.
No dia anterior, ele sentia vontade de chorar, mas após uma longa noite sem sono, o choro deu lugar a uma resignação amarga que o forçava a compreender toda a sua responsabilidade naquele lugar em que estava. Foi ele quem cavara aquela cova e não poderia culpar a ninguém que não fosse a si mesmo.
Mas era tão injusto.
Pois aquele esporte, aquilo ali, era tudo o que Benjamim sabia fazer, era o que ele fazia de melhor (em sua opinião) e qual o sentido de ter um dom se não utilizá-lo para construir a sua vida? No fundo, Benjamim sentia-se desolado. O futuro era incerto e nebuloso. Nenhuma perspectiva positiva e por isso encarava a quadra como se não tivesse vida, como se fosse uma estátua. Sua cabeça ia de um lado para o outro, mas quase imperceptível e quem via de fora (um segurança solitário, as tias da limpeza, o dono de um dos quiosques do clube) sorriam, imaginando que drama adolescente aquele moleque estava montando agora?
Sua desolação era tamanha que nem viu o treinador atravessando os corredores entre as quadras para vê-lo. Só o notou quando estava já muito próximo, mas o Samurai o recebeu apenas com uma aceno a distância. Carregava uma mochila nas costas, para treinar seus outros pupilos a partir das 11 horas e ao ficar próximo da escada da arquibancada, perguntou:
— Cade sua raquete?
Benjamim quase riu. Fez uma pausa e olhou para os lados, como se quisesse confirmar se a pergunta era para ele mesmo.
O treinador o encarou, balançou a cabeça ao mesmo que movimentava os ombros e esperou.
— Eu fui suspenso.
— Como sabe?
— Publicaram — e Benjamim mostrou o sumafu para que o treinador visse.
Ele leu as informações na tela e depois olhou para o céu.
— E daí? São oito meses. Não vai treinar?
— Pra quê?
O treinador bufou e respondeu, impaciente:
— Moleque, tá tirando onda com a minha cara?
Os passos do treinador trovejaram ao subir a arquibancada até sentar-se ao lado do menino.
— Eu sei que você deu muito de si pelo campeonato. Eu sei o quanto ganhar aquilo ali era importante pra você e você tava muito bem, você tava ótimo, Benjamim. Não pode deixar isso te abalar.
— Cê sabe do que eu tô falando, professor.
Benjamim o encarou e o Samurai viu seu reflexo nos olhos do menino, mas não era o mesmo rosto que encarava todas as manhãs que estava ali. O Samurai se viu ainda jovem, após perder um dos últimos campeonatos de sua carreira e entendeu. Virou-se para frente e deixou os braços tombarem sobre os joelhos.
Nenhum dos dois viu o tempo passar enquanto ficaram em silêncio. O Samurai apoiou a cabeça em uma das mãos. Benjamim balançava a garrafa, segurando-a pelos dedos. Não tinham pressa.
— Não se odeie por causa disso, Ben. Não é o fim do mundo.
— Eu não me odeio.
— Então o que é?
— O que… o que dá pra fazer? Tipo… sei lá…
Benjamim apertava as mãos e mordia os lábios. O treinador suspirou e, encarando a quadra de número 1, lembrou de toda a potência que ele demonstrou nos jogos daquele torneio. Venceu os adversários de maneira avassaladora, ganhando o apelido de trator nos comentários das redes sociais. Nem parecia o mesmo Benjamim que jogava com certa leveza, muita velocidade e ganhava os jogos de forma estratégica.
— Não precisa levar isso tão a sério. Não é assim que você joga. E não precisa desistir de tudo por que não deu certo. Você tem potencial de verdade pra isso.
— Você sabe que não posso me dar esse luxo agora.
— Volta daqui 8 meses, daqui um ano que seja. Mas não abandone, não jogue fora o seu talento. Não precisa ficar pensando que isso não vai te levar a lugar nenhum. Sua mãe não toca piano ou teclado, sei lá? Ela não toca pra uma plateia cheia, é só pra família, final de semana e tá tudo bem. Seu pai. Seu pai toca sanfona, não é? Quantas vezes ele tira aquele trambolho da armário pra tocar? É a mesma coisa aqui. Um dia você pode chegar no topo do mundo e descobrir que não tem graça nenhuma lá. Ou pior, você pode querer provar algo a alguém e descobrir que não precisava provar nada, porque ninguém tá te olhando de verdade.
Um dos zeladores do clube entrou nas quadras. Deu uma olhada nas redes, mas passou recolhendo o lixo que estava espalhado por entre elas, nas arquibancadas e enroscados nas grades que limitavam os espaços.
Benjamim olhou para o treinador. Ele o encarava de maneira séria, mas não parecia esperar uma resposta. Seus olhos o estudavam, como se quisessem confirmar que o menino o havia escutado e consideraria seriamente, brutalmente, o que ele havia dito. Eram raros os momentos em que o Samurai se abria e ele sempre queria confirmar que havia sido ouvido.
O menino balançou a cabeça em concordância, mas não foi o suficiente. Os olhos do Samurai permaneceram imóveis, buscando, investigando. Benjamim virou-se para a quadra e enfim, recostou-se na arquibancada. Virou-se para encarar o professor e esboçou um sorriso.
Ele precisaria de mais tempo para se acostumar com a proposta que o Samurai havia lhe apresentado. A questão ainda não estava resolvido, mas o Samurai já esperava por isso. Ele também já havia sido suspenso e também levou muito tempo para que todas aquelas palavras fizessem sentido. Assentiu e levantou-se:
— Bom, você não vai treinar hoje, então?
Benjamim balançou a cabeça.
— Então vem me ajudar.
E foi assim passou a próxima hora ajudando o Samurai na manutenção das quadras, rastelando saibro, arrumando os armários de raquetes que foram super-usados na última semana, programando as máquinas de saque e ajustando a tensão dos postes.
Findo o trabalho, o Samurai despediu-se de Benjamim da forma mais dolorosa possível, com um abraço e ali Benjamim sentiu-se mais desesperado do que nunca. Mas ao soltá-lo, o Samurai sorria.
— Eu tô aqui.
— Tamo junto! — respondeu o garoto.
Benjamim deu meia-volta e foi procurar pela irmã, que já deveria ter terminado sua aula de dança há muito tempo. De fato, Manu estava na área de recreação, equilibrando uma bola de tênis numa raquete, movendo o corpo inteiro para isso. Quando Benjamim chegou, ela perguntou:
— Brinca comigo?
Ainda havia muito tempo até o próximo ônibus, então Benjamim deu de ombro e topou um jogo rápido com a pequena.
Ela ainda era muito baixa e tinham que jogar numa mesa adaptada para as crianças, mas sacava com jeito e se movimentava rápido. Já se aproximava o fim do primeiro set quando Benjamim deu um corte rápido na bola e percebeu que sorria, sem querer.


