Fuga
Um conto de coincidências e desencontros
A madrugada estava fria em Armistício, após uma chuva que durou o dia anterior todo. Eduardo nem sabia quanto havia caminhado no meio das árvores seguindo o caminho do rio. Já haviam atravessado o centro da cidade, oculto pela sombra de seus prédios pequenos e pelo seus cálculos, não deviam estar longe do ponto que combinara. Mas era Guido quem havia preparado o plano de fuga e nenhum dos dois ousava falar algo desde que saíram do alcance da prisão municipal. Suas alpargatas e uniformes já estavam encharcados e sujos. Eduardo batia os dentes com o frio, mas Guido continuava a se movimentar à sua frente, distanciando-se cada vez mais.
Quando já não era mais possível vê-lo, Eduardo ousou quebrar o silêncio:
— Vai mais devagar, Guido. Tô cansado!
Não houve resposta. Continuaram seguindo o rio. O motivo do silêncio foi lentamente mudando: da tensão da fuga para a dúvida com relação ao contato de Eduardo. Já era para terem encontrado a estrada, mas nem sequer ouviam algum barulho de motor. O barulho da água dava sede e, cansado, Eduardo parou para beber um gole de água. Então ouviu galhos quebrando, pedras rolando e viu a sombra do que deveria ser Guido subindo a encosta, desviando-se do caminho.
Sem pensar duas vezes, Eduardo o chamou, mas antes que levantasse a voz, decidiu subir a encosta em sua direção. Era um caminho tortuoso, escorregadio por conta da lama e Eduardo poderia ter parado de subir, não fosse o grito que ouviu acompanhado do som de pancadas distantes. Juntou todas as forças que tinha e subiu a encosta o mais rápido que pode.
Ao chegar no topo espantou-se, mas apenas por um segundo. Ele sabia que Guido era impulsivo.
— Você tá maluco? — chiou, aproximando-se de Guido para segurar a lapela de seu uniforme.
— Em 6 horas a gente vai estar fora desse planeta. Que se dane! Entra no carro!
Guido empurrava o corpo do homem para longe do carro.
— Entra no carro?
— Pega ela e joga aqui pra mim — falou Guido, como se não fosse nada.
— Eu não vou participar disso!
Então, Guido agarrou a lapela do uniforme de Eduardo e disse:
— Você está fugindo de uma prisão para ir pra Marte e agora está querendo bancar o mocinho? Deixa de viadagem e faz logo o que eu digo!
— Eu não sou assassino!
Guido o empurrou.
— Então vai fazer o quê? Ficar andando por esse rio até o dia amanhecer e perder o foguete? Boa sorte daqui dois anos, otário!
— Eu te falei, eu tenho um contato bom. O cara arrumou uma carona pra gente, está num posto logo após a ponte, acima do ponto em que o rio dobra. Eu te falei!
— Tô vendo mesmo! — ironizou Guido, colocando o corpo da mulher por cima dos ombros e jogando-a acima do homem — Pronto! Fiz o trabalho sujo mais uma vez. Agora vê se entra no carro pra gente ir logo pra Bainos.
Eduardo levou uma mão a boca, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro.
— Entra no carro ou eu te mato!
Eduardo encarou Guido. Suas duas mãos estavam fechadas, ao lado da porta aberta no lado do motorista. Era impulsivo, mas não burro.
— E vai sair do planeta como? Com que documentos?
— Entra logo no carro!
— Boa sorte pra você, Guido!
E Eduardo pulou da encosta, rolando até o rio, onde seguiu caminho correndo no sentido contrário ao da água. Assim como havia feito duas horas antes não olhou para trás. Era como se tivesse recuperado as energias novamente. O ar entrava frio em seus pulmões e saia quente pela boca. O nariz escorria, mas ele não perdia tempo para limpá-lo. Correu da forma como apenas um fugitivo pode fazer. Correu até ver uma bifurcação no rio. Correu até chegar a ponte apenas dois metros acima dessa bifurcação.
Escalou a encosta novamente e viu um posto alguns metros à sua frente. Era pequeno e, como muitos postos naquela região, ainda tinha bombas de gasolina e diesel, mas a maioria eram pontos de carregamento elétrico. No último ponto, um caminhão cheio de ovelhas esperava o carregamento completo de sua bateria. Tinha um adesivo de “Viagem à Marte” no parachoque traseiro e um cadeado eletrônico aberto encaixado na portinhola da carroceria, exatamente como seu contato disse que estaria.
— O pai do Levinho
Vive no bar
Toma uma pinga
E começa a mijar!
Cade o Levinho?
Tá com vergonha?
Viu o pai dele
Cair da poltrona!
Levinho corre!
Levinho chora!
Mas quando é sexta,
O pai já tá fora!
Era esse o coro de crianças que acompanhavam as pedaladas de Levi na rodovia estadual. As lágrimas já estavam secas com o calor que suas bochechas emitiam. Na curva do Posto do Beijo, onde tinha uma ampla clareira atrás de um ponto de ônibus, ele parou e abriu o peito pra gritar:
— Calem a boca!
Os três meninos que o seguia diminuíram o ritmo de suas pedaladas para observar o alvo de suas zombarias. Olhavam de maneira presunçosa para o pequeno e o mais velho desceu da bicicleta no acostamento.
— Esquece aquele velho. Vai ter um dia que ele não vai mais voltar pra casa!
— Cala a boca! — gritou Levi, voltando a chorar.
— Vem fazer calar!
Levi apertou forte o guidão da bicicleta e mordeu os lábios. Os meninos riram alto e as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, ardendo como se fossem pimentas.
— Eu faço! — berrou Otávio.
Todos olharam para a curva na rodovia. Pedalando de pé vinha o irmão mais velho e mais velho que todos os meninos ali. Com o punho cerrado, ele se equilibrou na bicicleta e desferiu um soco num dos garotos que provocava o seu irmão. O que estava no chão, logo subiu na bicicleta e disse para os amigos:
— Sujou, galera!
E pedalou em direção à clareira, sumindo atrás do ponto de ônibus.
Otávio fez o pneu chiar antes de parar na frente do irmão e ofegante, disse:
— O que você tava pensando, hein?
— O papai não voltou! — berrou Levi, deixando as lágrimas escorrerem ainda mais.
— Fecha o bico!
Levi abaixou a cabeça e tentou não fazer barulho ao chorar.
— Você tá maluco? — perguntou Otávio repreensivo — O que a mamãe te disse sobre pegar a rodovia? Que ideia foi essa?
— Eu ia até o posto... o papai falou que ia no posto...
— E você acreditou? Ele mentiu! Ele só saber mentir, aquele velho idiota...
— Otávio... — murmurou o irmão.
Levi o encarou, com os olhos inchados, cheios de lágrimas e o irmão suspirou. Otávio desceu da bicicleta e o abraçou, dizendo:
— O papai vai voltar mais tarde... você vai ver. Ainda é 7 da manhã, sabe como ele é...
Foram distraídos pelo grito de um dos valentões. Os dois irmãos voltaram sua atenção para a clareira e não demorou muito para que os três meninos aparecessem em suas bicicletas pedalando na direção de Armistício como se tivessem visto um fantasma. Otávio deixou a cabeça tombar para um lado e curioso caminhou para trás do ponto de ônibus. Ali se abria uma clareira que os casais da pequena cidade de Armistício usavam como ponto de namoro e ele já era velho o suficiente para saber disso.
Deu alguns passos e pediu para seu irmão esperar. Levi contou dez passos do irmão e começou a segui-lo. Era uma clareira grande, que começava a se estreitar conforme se aproximava para a ribanceira do rio que descia lá da área rural, onde os meninos moravam. Não havia nada de incomum por ali, nada que já não fosse encontrado numa manhã de sábado. Otávio levou uma mão ao queixo quando chegou ao final da clareira e levou as mãos à cintura. Respirou profundamente e quando olhou para sua esquerda finalmente notou.
Sabendo dos passos do irmão, estendeu uma mão para trás e encarou Levi:
— Não venha.
Levi continuou caminhando, então Otávio se viu obrigado a caminhar em sua direção:
— Vamos falar com a mamãe!
— O que aconteceu? — perguntou Levi.
— Não sei... acho que um acidente.
Os meninos levaram ainda meia hora para chegar até o sítio onde moravam. A mãe levou outros dez minutos para acreditar no que diziam e outros dez para falar com o vizinho mais próximo. Levou ainda mais meia hora para que a polícia fosse acionada e já passava das 9 quando ligaram o assassinato com a notícia de que dois detentos escaparam da prisão no lado norte da cidadezinha.
No entanto, não levou 5 minutos para que toda as unidades de polícia da região centro-oeste dos Morros Paulistas fossem acionadas na busca por esses dois indivíduos. Ainda mais sabendo que o foguete bienal para Marte fosse sair naquele sábado.
Eram 5 da manhã quando o caminhão saiu. Levava menos de uma hora para chegar a Bainos de Armistício, mas devido a carga pesada eram 6h da manhã quando Eduardo desceu da carroceria na zona sul. Tinha uma calça, um sapato e uma blusa no chão que ele vestiu assim que entrou e ainda conseguiu tirar um breve cochilo. Seu contato dizia que ao descer da carroceria ele só devia seguir o cheiro de torresmo, mas estava com o nariz trancado e quando encontrou um moto-táxi perguntou onde poderia tomar um café da manhã ali perto, mas o rapaz lhe indicou uma padaria.
Ainda assim, Eduardo foi até lá. Não tinha dinheiro e devia estar fedido, mas entrou no estabelecimento ainda assim e juntando toda a cara de pau que tinha, perguntou ao caixa:
— Eu tô afim de uma comida gordurosa, sabe onde eu posso encontrar?
— A gente tem risoles — respondeu o atendente — De carne e presuntiqueijo. Qual vai querer?
Eduardo meneou e após esfregar o pescoço, que ainda doía, insistiu:
— Eu queria algo mais forte, tipo um torresmo.
— A gente não vende torresmo, senhor. Que tal atravessar a rua?
Eduardo olhou pela porta de vidro. Do outro lado da avenida tinha um bar do alemão, anunciando joelho de porco, ovos caipiras e torresmo assado todo sábado de manhã. Eduardo suspirou aliviado.
Deu a volta no tal bar e subiu as escadas, seguindo o que tinha combinado com seu contato. Encontrou várias quitinetes acima do bar e dirigiu-se à última, cuja porta estava aberta. Encontrou uma cama, uma mala cheia de roupas em cima dela e olhou ao redor. Era uma suíte simples, com uma copa dividindo espaço com a cama. Eduardo decidiu esquentar água e foi tomar banho. Aparou a barba e cortou o cabelo, ficando quase irreconhecível. Quando saiu do banheiro, já vestido, preparou um café e esperou, até ouvir uma batida tripla na porta.
Era o sinal.
— Finalmente, Marius! Porque demorou tanto pra chegar?
— Porque o seu parceiro descobriu o meu local, Ed. Sabe o que isso significa?
Eduardo jogou a cabeça para cima. Então Guido descobriu o local mesmo? Era impulsivo, mas não era burro.
— Escuta, desculpa, ok? Desculpa mesmo. Eu não queria fazer par com ele, mas ele tinha um plano perfeito pra escapar. Você não tem noção, não tivemos trabalho nenhum pra sair de lá.
— É claro que não tiveram trabalho, se aquela cidade tiver 20 policias é muito. Sabe o que eu daria pra ir parar numa prisão daquelas?
— Não daria mais de 20 anos da sua vida, isso eu tenho certeza.
Marius encarou Eduardo e suspirou.
— Aquele cara é encrenca, Ed. Ele entrou no meu escritório empapado, cheio de sangue. Sorte que era bem no final da noite, já não tinha mais clientes.
— Mas e aí, o que você fez?
— Dei a ele o que ele queria, ora. Já estava tudo pronto mesmo.
E tirou do bolso do casaco um pacote de papel que foi jogado na cama. Eduardo abriu o envelope. Olhou primeiro a identidade. O nome Domício não era lá grande coisa, mas tudo bem. A foto havia sido alterada digitalmente, mas ainda parecia com ele naquele momento, sem barba e cabelo curto, quase raspado. As passagens brilhavam e a cold wallet era de um modelo antigo, apertou o botão de ligar e viu o saldo, mais de 1000 woolongs, o suficiente para se virar por mais de um semestre. Em Marte daria para dois ou três meses.
— Valeu mesmo.
Colocou tudo nos bolsos da jaqueta e sentou na cama para apertar os sapatos.
— O que vai fazer, Ed?
— Ora, vou até o espaçoporto. Já está tarde.
— Seu amigo ferrou tudo, Ed — Marius atirou o celular na cama.
Eduardo o apanhou e leu. Era uma mensagem dizendo que a polícia foi acionada para apanhar 2 prisioneiros fugitivos. Um deles foi visto em direção ao espaçoporto. Todas as autoridades de lá já estavam cientes e o identificaram no saguão. Ele seria pego assim que se levantasse para entrar no foguete.
Eduardo largou o celular e deitou, ou melhor, despencou na cama.
— O que eu faço agora? — ele perguntou para o ar.
— Você tem uma vida nova, rapaz. Tem um novo nome, dinheiro e uma passagem pra Marte que, até onde se sabe, você se atrasou para apanhar porque a polícia cercou as vias de acesso pra buscar um criminoso. O Valter, aqui do bar, é seu álibi. Vai viver sua vida. Daqui dois anos você viaja.
— Não dá pra acreditar...
— E agradeça a Deus. Você tem um segundo plano. Tem gente que daria a vida pra escapar daqui.
Marius saiu, sem nem dizer tchau.
Da cama, Eduardo conseguiu sentir o cheiro de torresmo e quando a barriga roncou, desceu. Não comia há mais de 12 horas e quase chorou enquanto comia. Ao seu redor, muitas pessoas entravam e saiam do bar, o tal do Valter estava atrás do balcão, mas não atendia ninguém, só observava. Na TV as notícias de última hora apresentavam a prisão de Guido, a revolta de várias pessoas que se atrasaram para apanhar o foguete e a promessa da StarCruise de reembolsá-los no próximo dia útil, ou seja, terça-feira, porque segunda era feriado.
Eduardo recolheu-se em seus pensamentos. De braços fechados olhou para a mesa de madeira a sua frente e não saberia dizer quanto tempo ficou ali. Só sabia que sua atenção foi quebrada quando ouviu o Valter brigar com alguém, algum bêbado que passara a noite ali e agora chorava arrependido por ter abandonado a família pra beber.
— Como é que eu vou dirigir nesse estado? — perguntou ele, entre lágrimas, enquanto era chutado por Valter.
— Não me importa. Vaza daqui, miserável!
Era hora de ir também. Eduardo levantou-se, pagou a conta e saiu. Encontrou o bêbado dando socos na porta de sua camionete. Uma velharia laranja com motor à combustão.
— Hey, se acalma aí, amigo. — disse Eduardo.
O bêbado o encarou. Cuspiu no chão e perguntou:
— Já sentiu como se tivesse jogado sua vida no lixo?
Eduardo riu. Sentiu o olhar do bêbado o julgar e tirando as passagens do bolso, respondeu:
— Já sim.
O bêbado levou um tempo para entender o que se passava e então começou a rir da cara de Eduardo.
— Tá certo, tá certo... — disse Eduardo, levantando os braços — Não é pra tanto, vamos, entre no carro, eu te levo pra sua casa.
— Eu moro longe.
— Eu tenho todo o tempo do mundo.
Eduardo jogou a mala na caçamba da camionete e entrou no carro. Pisou no freio, na embreagem e no acelerador. Mexeu o câmbio e ajeitou o espelho retrovisor para a sua altura, um pouco menor que a daquela homem.
— Onde o senhor mora?
— Em Armistício.
Um frio correu a espinha de Eduardo e por um tempo ele encarou a estrada à sua frente. Como se repetisse um mantra ele disse:
— Meu nome é Domício. Meu nome é Domício, mas você pode me chamar de Dom. Muito prazer.


