Explosões
Pela enésima vez, Osvaldo desviava o olhar da pista para olhar o espelho retrovisor interno e certificar-se de que aquilo estava acontecendo de fato; ele realmente estava levando uma pessoa ilustre, ilustríssima no banco de trás. Era uma pena que não tinha limpado ele antes, uma pena que não tinha uns cartões impressos, uma pena mesmo e por isso ajustou o taxímetro para não elevar muito o valor e (quem sabe?) ganhar a confiança dela.
Emanuele Brandão, a heroína de todo um continente, de óculos escuros observava os prédios que se erguiam por cima do engarrafamento da vicinal Norte-Sul de Seasontown e suspirava. Seu ar altivo, gracioso e refinado contrastava com a calça jeans sóbria que usava, a camisa clara de mangas bufantes e mala simples que ela colocou ao seu lado no banco assim que entrou no veículo. Sua aparência era simples, mas carregava uma melancolia que só um nobre seria capaz de ter. Por três semáforos ele ensaiou perguntar o que ela estava fazendo ali e por três semáforos ele falhou. Agora que seu destino estava próximo, não podia falhar:
— Qual a emergência interplanetária dessa vez?
Ela virou o rosto e sorriu. Fez questão de tirar os óculos e revelar os olhos cor-de-âmbar.
— Só familiar dessa vez.
— Sua família é daqui? — ele engasgou.
— Moram há um tempo, sim. Mas a gente é do… — ela suspirou — é do interior.
— Tecnicamente estamos no interior também… a Capital é do outro lado do estado.
— Eu quis dizer de Armistício.
— Ah, sim, sim, desculpe…
— Que isso… — ela olhou por cima do banco do carona — Fica tranquilo, Osvaldo. Posso te pedir um favorzinho?
Esperou ele acenar com a cabeça, nervoso.
— Posso ir no banco da frente? Eu sempre passo mal no banco de trás.
— À vontade! — ele respondeu, num engasgo.
E no meio do trânsito, com a luz verde do semáforo já acesa, mas antes dos carros saírem do lugar, ela desceu e se colocou no banco da frente, lembrando de quantas vezes nos últimos três anos havia feito aquele caminho e todas as vezes havia desistido bem ali, antes de entrar em Casablanca, o distrito onde seus pais moravam.
A última vez era naquela mesma época do ano. A casa tinha uma guirlanda na porta da frente, o presépio havia sido montado em cima da cristaleira da sala de jantar. Novíssimo, porque o anterior havia sido quebrado pelo Jonas, que já tinha 2 anos, mas ainda era o xodó da família. Naquela ceia ele já tinha três anos e tinha um jato vermelho a tira colo, muito parecido com o que a tia pilotava. Enquanto as orações eram feitas, ele balançava o brinquedo por cima do sofá da sala, provocando o sorriso da tia e os olhares atentos de Benjamim e Giulia. A família era numerosa então ficaram espalhados pela casa, mas a mãe insistiu:
— Fica do meu lado, filha.
E Manu colocou seu prato na quina. Geovanna passou um braço em torno de seus ombros e aproximou a cabeça da dela. Eram quase da mesma altura agora e Manu estranhou, pois Geovanna sempre fora tão alta.
— Que bom ter todos vocês aqui! — exclamou ela, olhando emocionada todos os seus filhos crescidos.
— Qual a emergência intercontinental que você vai resolver agora, hein? — perguntou Otávio, seu tio, do outro lado da mesa.
Ele deu um cutucão em Albuquerque, que apenas sorriu amarelamente.
Manu esperou o pai, que encerrou o seu sorriso assim que buscou um pedaço de pernil.
— Ela vai derrubar o zepelim do Eixo agora! — exclamou Levi, o tio mais novo, provocando algumas risadas e uma cotovelada de Margot — O que foi? Pra acabar a guerra no Atlântico!
Ela o encarou por baixo das pálpebras e ele levantou os ombros. Levantado para cortar o pernil, o irmão mais velho de Geovanna, o tio Bernardo, foi quem mais surpreendeu:
— Na verdade isso seria muito bom.
E até mesmo Matteo, que estava indo sentar na sala com as crianças, parou ao lado da mesa para ouvir.
— Eles escondem esse zepelim sob aquela tecnologia bizarra de nuvens e ninguém consegue rastreá-los ou entrar neles e enquanto eles continuarem lá, vão continuar aterrorizando a África, a nossa costa, o Caribe. Vocês lembram quando eles apareceram aqui, em Seasontown, uns 10 anos atrás, certo? Lembram de como foi, o terror que eles causaram com aquela onda eletromagnética?
— Eu estava passando roupa nesse dia… eles conseguiram queimar o meu ferro! — exclamou Giulia, cortando um pedaço de carne no prato para o filho — O meu ferro!
Todos riram, exceto duas pessoas, embora nem todas as risadas fossem sinceras. Sincera era a risada da esposa de Levi, que disse:
— Querido, isso não é assunto para agora. Seria algo perigoso até mesmo para a Harpyja.
— Nada é perigoso para minha irmã, tia! — exclamou Bianca — ela ainda vai ser uma heroína intercontinental!
E lançou uma piscadela para Manu.
Entre risadas, o namorado de Bianca, Edmond, perguntou:
— Mas mesmo o título de heroína nacional, teve polêmica, né? Então não é só o perigo real… tem um risco social também, né?
Seus olhos escuros arregalados revelavam um interesse genuíno que fez Manu endireitar-se na cadeira e respirar profundamente.
— São só os demagogos. Ninguém liga pra eles, de verdade — ela respondeu.
— Braba! — exclamou Matteo, seguindo seu rumo para a sala.
— Não são só os demagogos — murmurou Albuquerque do outro lado da sala.
Manu o encarou e voltando-se para seu prato, murmurou:
— Alguns idealistas também.
Albuquerque riu, com certo escárnio.
— Imagino que todas aquelas pessoas que estão se esforçando pra ajudar os outros sem entrar nessa máquina de guerra; missionários, os voluntários, até mesmo alguns milionários que financiam uns projetos mobiliários, que levam água pra pessoas no meio do deserto, são todos idealistas, né? E esse ideal não leva a nada…
— Não começa, pai…
— Então vamos falar de objetividade — Albuquerque abriu o peito — Vamos falar do que eu vi! Quando eu tinha a sua idade e fui pras ruas da Capital, antes mesmo dela ser Capital, com mais um monte de gente, milhares pra ser mais específico e pressionamos o governo meses e meses, forçando a assinatura do Pacto Richardson-Nabokov, que, olha só, permitiu tudo isso que você tá vendo aqui, permitiu tudo isso que você viu a vida inteira. E você acha que isso é puro idealismo, porque você nasceu no meio de uma sociedade ideal, livre, tranquila, com Cidades-Estado num sistema ideal.
— Sim, eu sei, pai. Já tivemos essa conversa antes, é o mesmo sistema…
— Filha…
— Espera, mãe. A gente já teve essa conversa e eu fiquei pensando. Você tem razão, eu nasci numa sociedade ideal, com muito mais oportunidade e liberdade e tudo bem e tchatchura, mas é tudo isso que permitiu também a criação da Harpyja. Você esquece que é uma empresa de segurança privada.
— E que tem caças e jatos e que alimenta a máquina da guerra comprando e desenvolvendo armas, alimentando toda a desgraça que faz do mundo um lugar ruim pra se viver.
— Não, peralá.. é diferente.
— Ah, sim… — Albuquerque apoiou os dois cotovelos sobre a mesa e a cabeça em cima das duas mãos.
— A Harpyja faz trabalhos humanitários, diplomáticos, resgates no máximo.
— Claro. Com armas e caças e bombas.
— Armamentos defensivos.
Albuquerque riu.
— Ninguém se arma até os dentes pra se defender.
— Claro que sim. A linha é tênue, mas existe.
— Nem mesmo você acredita nisso… não é possível.
— Escuta. A mamãe contratava a Harpyja quando tava no museu. Porque você não conversa com a sua esposa, hein?
— Não seja irônica comigo, menina. Você sabe o quanto eu odeio isso.
— Eu não seria se você me ouvisse de vez em quando.
— Eu não te escuto? Eu não te escuto?
— Abaixa a voz, Al — disse Otávio.
— A minha voz está perfeitamente normal. Eu preciso te lembrar do quanto eu brincava contigo quando você era criança? De quantas vezes eu levantei no meio da noite pra você não dormir sozinha?
— Que drama, pai! Você sabe muito bem que não é disso que eu tô falando.
— Vamos falar do seu emprego então, vamos falar de como você pilota um caça no meio do deserto do nordeste ou de um deserto africano ou no meio do Chile, jogando caixas de mantimentos enquanto seus colegas assassinam governadores e explodem casas de civis.
— Isso é teoria da conspiração! Me fala um nome, então! Você não consegue!
— Manu, abaixa a voz quando falar com teu pai! — repreendeu a mãe.
— Um nome! — repetiu Manu.
— O que aconteceu com o governador Juarez, então?
— Ele morreu na cama!
— Uma semana antes de assinar um tratado que ia impedir vocês de atuarem no Nordeste e coincidentemente o grande chefão Aldo estava lá, de férias com a família. E por ser uma boa alma é ele quem paga a estadia do governador no hospital.
— É exatamente o mesmo papo dos demagogos, pai. O mesmo papinho.
— A César o que é de César. Se os demagogos estão certos, a gente tem que reconhecer. Até porque, qual foi a nota que a Harpyja publicou depois?
— Sei lá, pai…
— Exato. Você nem sabe o que eles publicam…
— Pô, que assunto indigesto, hein, mano? — disse Levi.
— Você lembra! — Albuquerque apontou para o irmão — A nota desviando o assunto para algo nada a ver, para uma rivalidade de gangues que nada tinham a ver com o governador.
Levi deu de ombros.
— Foi ou não foi estranho?
— Foi, mas…
— Mas o quê? — perguntaram Manu e Albuquerque ao mesmo tempo.
— É estranho, Manu… — disse Levi, fazendo careta — A gente questiona.
— Viu? — os olhos de Albuquerque queimavam e Manu bufou.
— Mas Al, a região lá melhorou tanto quando o vice assumiu. E aquele tratado lá, ia prejudicar bastante eles.
— Um erro não justifica outro!
— É disso que eu tô falando, pai. A gente tem que ser pragmático, o mundo tá acabando lá fora e você quer o quê? Que todo mundo faça greve de fome e que a paz surja magicamente.
— Claro que não! Isso não é coisa possível, eu sei bem…
— E aí então, o que você quer?
— Nem tudo é possível…
— É isso! No fundo, no fundo, você acha que essas coisas sempre vão acontecer, que só nos resta sentar e esperar o fim do mundo, não é?
— Não! Eu não tô esperando o fim do mundo, sentado. Eu trabalhei um monte pra que todo mundo aqui ficasse bem, eu passei por um monte de coisa, não despreze o que eu fiz por todo mundo aqui, como se tivesse sido fácil, porque você sabe que não foi.
— Eu tô fazendo minha parte também. Eu tô fazendo o que não é fácil, o que não é tranquilo e você sabe disso também. Você fala de um caso aí e fica usando isso pra julgar tudo…
— Porque a gente não fala do México então? E do Peru?
— Foi outra gestão, foi o Koch o responsável por tudo aquilo e ele já saiu da gestão da Harpyja há tempos, antes mesmo de eu entrar.
— E os administradores, os supervisores, todo mundo que participou com ele de tudo que aconteceu? Onde eles estão, hein?
— Muita gente já saiu!
— Muita gente. Muita gente.
— O que você queria? Que os Harpyjas fechassem as portas? Que eles mandassem todo mundo embora e voltassem dali um, dois anos, como?
— Seria bom que nem voltassem.
— Ah, perfeito. Uma empresa que ajuda tanta gente, que faz tanta coisa, ia ficar parada pelos caprichos do grande Albuquerque Valburgo!
— Não é má ideia!
— Olha você sendo irônico aí!
— Aprendi contigo.
— Já que estamos todos aprendendo aqui, que tal aprendermos a comer sem falar, hein? — perguntou Bianca.
— Eu já tô sem fome — disse Geovanna, esfregando a testa com a ponta dos dedos.
Albuquerque olhou para a esposa de forma arrependida, mas logou mudou com o comentário que veio de Manu, do seu lado.
— Esquece pai, o mundo não gira em torno do seu umbigão!
— Você fala como se eu fosse um garoto mimado, você não tem ideia, Manu! Você não tem ideia!
— Você não tem ideia do que eu faço e fica falando como se eu fosse uma… Kriegshetzerin!
— Xi, meteu um alemão, já era… — comentou Benjamim.
— Ela sabe mesmo? — perguntou Giulia.
— É a única de nós que aprendeu.
— Bem lembrado — falou Albuquerque — Bem lembrado.
— O que você quer dizer? — perguntou Manu, encarando-o.
Albuquerque fechou as mãos a frente de seu rosto.
A última discussão que tiveram sobre o assunto terminou amarga. Palavras como orgulho e desapontamento foram jogadas e deixaram feridas que Manu ainda não tinha curado. Da forma como Albuquerque estava, ela sabia que ele iria dizer aquilo tudo de novo.
— O que você quer dizer?
O que Manu não sabia e nem podia saber é que aquelas palavras doíam tanto nela quanto em seu pai e apesar do ar estóico, ele não seria capaz de repeti-las. Assim que ouviu o enfrentamento da filha, abriu as mãos, apanhou garfo e faca e deu de ombros. Começou a desfiar o pernil em seu prato, lentamente, procurando fazer a tremedeira parar.
— Fica tranquilo, Albuquerque. O nome na minha jaqueta é Emanuele Brandão, eu não sou tua filha.
Imediatamente Albuquerque largou os talheres que foram a única coisa que soaram naquele segundo, como dois sinos anunciando o Apocalipse na era mais silenciosa. Ele respirou profundamente olhando para o teto antes de falar, mais para si do que para os outros:
— Você não disse isso. Eu não acredito nisso.
— Peça desculpas, Manu — disse Geovanna — você foi longe demais.
— Fica tranquila, Geovanna — respondeu Manu.
— Manu! — Geovanna gritou.
Mas o grito agudo de sua mãe foi logo abafado pelos brados do pai.
— Saia da minha casa então! — ele se levantou — Você não é minha filha, então tá fazendo o que aqui? Saia da minha casa! Saia da minha casa então!
E Manu se levantou, gritando:
— Eu saio! Eu vou sair mesmo! — passou por trás do irmão, cujo filho já chorava no sofá da sala — Você não sabe o que eu faço! Você não sabe e vive discutindo! O que você quer? Quer que eu abandone minha missão, minha vocação, porque está numa torre de marfim! — E finalmente batendo no peito imóvel do pai, ela gritou entre prantos — Você não sabe o que eu tenho que passar todo dia na droga daquele avião pra voltar pra casa e ter que ter o mesmo papo de merda com você!
— Não precisa mais voltar. Eu não sou teu pai mesmo.
E chorando ela subiu as escadas, enquanto Albuquerque se dirigia cabisbaixo para o quintal.
— Pode estacionar aqui mesmo.
— Na esquina, dona Emanuelle?
— Sim, a rua aqui é sem saída. Eu desço aqui mesmo.
Era uma leve subida, que Emanuelle seguiu como se fosse um calvário, lembrando de como desceu as escadas empurrando a irmã e a mãe com a mala na mão. Benjamim tentava fazer o pequeno Jonas parar de chorar junto da esposa e todo o resto da família estava espalhado, tentando comer, enquanto bebia alguma coisa, mas todos precisavam de algo mais forte que vinho ou espumante. Matteo a encarou da sala e ela viu que mesmo nele haviam lágrimas se formando. A única coisa que ele fez foi levantar uma mão e ela o saudou antes de abrir a porta e sair. Fazia calor aquela noite, tanto calor quanto fazia embaixo daquele sol de meio-dia. No meio do caminho, duas Emanueles se encontraram. A do passado era soturna e amarga, seus cabelos encaracolados escondiam uma feição cabisbaixa e recheada de lágrimas que escorriam de seu rosto ardidas feito facas que cortam a pele. A do presente estava de peito aberto, com os cabelos presos num rabo de cavalo que deixavam bem exposto à luz do dia o seu rosto, esperançoso e suave. Nenhuma lágrima era carregada ali, mas quando ela viu seu pai se levantar da cadeira da varanda e com um sorriso se aproximar para abraçá-la, elas escorreram novamente, abundantes feito as águas do Avalon.